tentativa fragmentos e imersão 1

*

Isso é muito importante. Eu preciso que você preste atenção. Você pode me escutar? Vamos começar agora. Ao meu sinal abra os olhos devagar. Devagar, isso. Repare que o apartamento está vazio. Não há nada. Ainda me ouve bem? Tudo que se vê são as paredes, retas demais, cheia de tomadas, interruptores. Você já tinha reparado antes? Que tudo está vazio? O sofá esburacado não está mais aqui. Nem o tapete cheio de cinzas, nem a televisão doada, grande demais para a estante. Nada. Veja, dê uma volta. Os cômodos todos, brancos, ocos, as portas – repare nas portas – tristes, cansadas agora que não levam à lugar algum. Marcel? Você me escuta?  Me diga o que você vê?

– O braços dobrados de uma forma estranha. Um angulo impossível.

*

Bianca não responde quando pergunto se dormiu bem. Apenas prepara o sanduíche com a cara amarrada. Está assim há dois dias. Disse ontem que estava cansada. Ela está sempre cansada. Eu preciso me apressar. Já havia me atrasado duas vezes antes na semana. Bianca fica extremamente feia quando está brava. O que a torna uma mulher feia a maior parte do tempo. O cabelo dormido contrasta com a janela da cozinha.

– Você não está atrasado, Marcel?

*

O velho apartamento da Santos Dumont. Um monolito bege perdido ao lado do rio Tamanduateí. Depois que me mudei daqui que mudaram o Detran para cá. Na minha época não tinha esse movimento todo. Dezenas de motoboys apressados, pastas e capacetes na mão. Aqui o bar do Moacir, o homem mais gordo que eu já conheci. Hoje faz fortuna vendendo almoço. Aceita até cartão. Todo dia mais cedo eu descia aqui para tomar um café, o copo americano cheio daquele veneno. Todos os dias eu queimava os dedos e a língua. Talvez de propósito. Mas tinha lá sua beleza. Me sentir pequeno perto do trânsito empacado da avenida, o olhos ainda se acostumando ao dia. Acendendo o cigarro com dificuldade. Aceno com a cabeça, mas Moacir não me vê. Ou não me reconhece. Chego à frente do porta verde. Duas pessoas usam o degrau como banco do ponto de ônibus. Procuro em minha bolsa. Talvez eu ainda tenha a chave.

*

Marcel? Venha, ande comigo. Tudo bem, não há com o que se preocupar. Confie. Venha. Aqui, no corredor, veja, nem mesmo a marca retangular do espelho continua na parede. Foi você quem tirou o espelho daqui? No banheiro só a pia. E o cano do chuveiro. Gotejando. Espera, espera. Isso no chão? Não é areia? Não vai me dizer que esses outros são brincos? Pegue-os, Marcel. São os brincos da Mariana, não são? As corujinhas vesgas? Isso está ficando ótimo, não acha? Agora, isso é muito importante, eu quero que você corra até o quarto, rapidamente, talvez ainda dê tempo de devolve-los. O que me diz?

*

– Sente-se.

A nova sala de reunião da agência. Uma grande tv de led de 50 polegadas e uma grande mesa para umas 10 pessoas. No entanto, só Claudia está sentada, esperando que eu  também me sente. Os braços cruzados, nada sobre a mesa, nenhum papel, nada. É isso.

– Você está feliz aqui, Marcel?

– Estou sim, bastante.

– É o seguinte. Sou eu que está segurando você aqui. Pela Betina e pelo Victor você já estaria na rua. Você sabe que eu gosto do seu trabalho. Você escreve bem, Marcel.

– Obrigado.

– Mas a agência não te paga para escrever seus livros. Nem para dormir. Essa semana você chegou atrasado todos os dias.

– Tem uma obra na saída da marginal, aqui atrás.

– Então saia mais cedo. Olha. Eu vou ser bem sincera com você. O TI está monitorando seu notebook. É um pedido direto do Victor. Um relatório semanal. Pare de escrever poesias, pare de escrever seus textos.

– Uhum.

– Vim te dar um toque. Como quem gosta do seu trabalho. Mas você não tem a menor disciplina. Eu preciso te lembrar dos prazos todos os dias. Você não para de bocejar e se espreguiçar na cadeira. Marcel, tenho uma reunião com os sócios na sexta. Eu vou apresentar minha opinião sobre você. Você tem até lá para me mostrar que está disposto.

*

Apesar do frio eu caminho sozinho pela praia. Tudo é um universo branco demais, quebrado apenas pela areia mais escura.

– Já se passaram dez anos.  Você precisa esquecer isso.

Eu não respondo, sigo caminhando, me abraçando ao meu casaco.

– Marcel!. – Agora é Bianca. – De novo essa merda dessa cara, brother?

Eu não sei onde estou indo. Ou onde estou.

– Você acha que eu não sei no que você está pensando? Em QUEM você está pensando? Seu merda! Eu preciso de um homem, cara, não de uma criança, porra, eu também preciso de colo sabia?

Passo por ela. Sabendo que ela gritará mais alto.

– Eu não estou me sentindo bem, Bianca.

Duzentos metros mais a frente, algo largado na areia, uma carcaça talvez.

*

A chave entra e gira com alguma dificuldade. A grande porta verde de aço abre fazendo o mesmo barulho de dez anos atrás. A maneira como Mariana prendia os cabelos num coque alto. A destreza das mãos pequenas, como um oleiro que dá forma a um vaso, O olhar fixo enquanto a boca segurava o elástico. E todo dia antes que eu saísse ela me pedia que eu ficasse, que eu perdesse o emprego mas que eu voltasse para cama. E abria um espaço enquanto levantava o lençol. Subo no elevador.

– Mariana, eu não posso. Você sabe.

– É por causa daquela mal humorada com quem você se casou, não é?

– De quem? Claro que não. Do que você está falando? É só que eu preciso ir trabalhar, como todos os dias.

– Ah, corta essa. Deita aqui, depois você arranja outra mulher. Ou outro emprego.

Eu não tiro os sapatos. Ela me cobre e puxa meu braço.

– Ei, seu bobo, o que você anda fazendo Marcel? E seu livro? Você não me deu seu livro!

– Eu dediquei ele a você, sabia?

– Sabia.

– Não vendeu nem 50 exemplares.

– E você não escreve mais?

– Eu. Eu não consigo.

– Você sabe que isso é zica minha. Não sabe? – aqui pequenas risadas de ombros

– Zica, Mariana? Sua?

– É. Por você ter me matado.

Acho a chave do apartamento. Na porta ainda falta o número 4 do 41. Funciona.

*

Bianca sorri quando eu chego. Seus cabelos é que sorriem. Venha. Vamos beber um vinho. E novamente parece que tudo melhorou. De uma hora para outra. Ela já não estava mais brava comigo. Seu rosto voltara a parecer elástico. A última coisa que tinha me dito era que levaria as coisas dela pra casa da mãe. E agora, essa: Vinho.

– Um brinde. – Ela diz.

– Um brinde. – Nisso os armários começam a dançar.

– Marcel. Isso é muito importante. Eu preciso que você preste atenção.

Todos os dias eu queimava os dedos e a língua. Talvez de propósito.

– Você está me ouvindo? Marcel?

Eu quero que agora você corra até o quarto, rapidamente, talvez ainda dê tempo de devolve-los.

– Você me ouviu,caralho?

*

O quarto, Marcel, porque você ainda está parado na sala? Você precisa se apressar. Um vulto passa rápido pela porta do quarto. Passos duros e rápidos. Já está começando de novo! Que ótimo! Você sabe o que está acontecendo, não? Aqui a janela abrindo, emperrada, Marcel. Marcel! Ah, agora você corre, né? Um estalo seco. Aquelo grito novamente, aquela mulher apavorada.  O alvoroço. Não te deixam chegar perto outra vez? Que gente insensível! Vá até a janela. Ande, Marcel. Você precisa ver o que está acontecendo. Agora, vamos, olhe pela janela. Quem é você?

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Um comentário sobre “tentativa fragmentos e imersão 1

  1. Gostei bastante.
    Gostei do jeito que o texto confunde(-se) nas memórias e no próprio caminhar das linhas. Gostei do entrelaçar dos fatos na medida em que se explicam. Gostei também da aparência de roteiro.

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