A memória narra

O trauma e a linguagem fragmentária em Num estalar de dedos.

Um tsuru verde flutuando a mercê do vento de uma saída de ar do metrô. Esta a ideia fixa que esteve presente durante todo o processo de criação do “Num estalar de dedos”.  Não quero aqui tentar explicá-lo; Mas acredito que algumas rápidas palavras sobre sua arquitetura podem ser interessantes a quem, assim como eu, tateia essa matéria disforme que por vezes chamamos – sempre levianamente – de literatura contemporânea.

Claro que a implosão da narrativa clássica data do modernismo.  Mas, acho eu, que o pós-dramatismo no teatro, que a frequente interferência entre as artes – a dança e o teatro, o cinema e as artes plásticas, etc – são indícios fortes de uma crise da narrabilidade, de um incômodo que têm sentido os autores contemporâneos diante da mesmice da ficção comercial, da linearidade fabular, dos enlatados norte-americanos.  E assim, acho que a literatura tem migrado cada vez mais para a uma espécie de alegorização, para uma representatividade poética. 

De minha parte costumo pensar as histórias através de algumas poucas imagens líricas, gosto de procurar metáforas visuais, de usar símbolos carregados de potenciais interpretações, ao invés de arquitetar quase que matematicamente uma estrutura para a trama. Procuro encontrar situações que sejam já poéticas, mas que sirvam também de alicerce sensorial para a trama, nela e para ela. Como me pareceu a imagem de um origami em forma de pássaro sendo verticalmente arremessado. A representação de algo que voa, que por sua parte é incapaz de voar, alçando voo. Por assim dizer. E foi este desfalque repentino entre signo, símbolo e significante, este representativo que repentinamente se aproxima de maneira irônica do representado que me pareceu, de imediato,  extremamente condizente com a história de desilusão que eu esboçava. A valoração de um sentimento é abruptamente confrontada com o seu imediato oposto, até que as pontas do espectro se anulem e o que reste seja algo próximo de um vazio. A fissura de um status quo, seja ele qual for, acredito, gera uma série de ressignificações e de reinterpretações, de re-ilusões. E foi este processo que passou a me interessar.

Foi disto que parti, e também sabia que queria escrever algo que, claro, fosse além da narrativa clássica ou do realismo comercial, mas que também esgarçasse os tiques pós-modernos, e que pensasse o livro como um dispositivo em si mesmo, quero dizer, que o próprio livro físico servisse à diegese (algo que tentamos com as páginas do livro, que clareiam e escurecem, acompanhando a imersão na personagem).

Ir além do fluxo de consciência como o conhecemos, esta a minha prepotência. Investigando um subconsciente literário possível. Através de uma estruturação do discurso não sobre o tempo lógico, como o conhecemos, mas num suposto tempo-psíquico. Desta forma tentei propor uma ilustração de como esta reorganização de memórias se daria bruscamente no personagem. Uma interpretação não racional, ou pelo menos não racionalmente racional. Expandir o tempo. Como se uma lente especial nos permitisse analisar poucos segundos cronológicos de forma demorada, dilatando-os.

Assim, como seria esse processo de assimilação? Foi o que perguntei ao meu personagem. Temos o gatilho traumático, que é a visão da mulher o traindo, e partimos deste ponto. No segundo imediatamente posterior, a informação visual (o signo) já fora processada e transformada em significado com exatidão? Ou não? Uma alegoria da ruptura traumática. Foi o que eu tentei explorar.

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