você gostava de dizer dos helicópteros
que buscavam pólen no topo dos prédios
e estalava linda os lábios
em desaprovo
não, seu bobo
eles não vendem mais amor
na vinte e cinco de março

e insistia com olhos cerrados
de que sim havia gosto de café
em todos os postes do centro
e que as folhas de jornais
que voavam na barão de Itapetininga
contavam todos os segredos do mundo
conquanto claro você fosse um passarinho

até o dia em que você disse havia caminhos demais
no coração dos perdidos
e por isso a sensação constante
de que nos grita o chão pedindo pés

das memórias estes escombros
no canto dos olhos
seus os cabelos emaranhados
me perguntando
seu eu também claro era uma ruína
se eu também tinha pálpebras de aço
como um boteco
um domingo
ou um passado

nós nunca mesmo nos mudamos para aquele vagão imenso do metrô?

pouco antes que fossemos todos mortos
pelo capricho mais niilista
de deus, pelo
longo enterro de memórias ainda vivas
você me sussurrou
abrupta como quem jamais piscasse
que caso
nos tornássemos mesmo esquinas
seria fundamental aprendermos
a nos dobrar sozinhas

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de morar esta distância
o contentar-se com o triz

e foram as mentiras
que carrego nos cabelos
dos dias
que quiseram por que quiseram lhe perdoar
pelos cataventos perdidos

e você disse sim me amava
quer era tolice
me amava
cedo demais
e por isso
é mesmo que nunca

você disse o que nos resta é este medo
esta entrega abrupta
que separa nosso peito demais, você disse

que não

você disse tudo bem
se apaixonar pelo meu sorriso
há esse vento mesmo
e só

Serão feitas três memórias e elas haverão de bastar
its a long way

dois rinocerontes enormes lutam no jardim
e toda quantidade faltante de sorte
hoje eu sou a janela
de maneira muito muito pequena
por que a gente se sente mesmo
como uma paisagem abrupta e estreita
quando te ligam as três da manhã
perguntando se são seus aqueles rinocerontes gigantes
no quintal
chove e toda quantidade de dúvida é um gosto de morte
e açúcar

no café

Fazer perder corpo

Deste beijo admita que me ama por maldade e deixe. O desespero precisa ser discreto, dedilhado: Que solto ar pairaria deste jeito não fosse teu hálito? Admita que o caminho se perdeu ao trilhar-se. E deixe. Que o sono tratará de embrulhar nossos sexos.
Deixe que eu me coloque aquém de mim, claro. Eu já te disse da úlcera. Tanto que aquela pessoa que não existe mas mora ainda em meu quarto quer agora me falar de aconchego. Veja. Os ponteiros do relógio da cozinha parece saíram pra jantar.
Não há como separar da triste cena nossas caras baças. E quando eu falar de fogo é, pois tenho pensado frio. Para comover, não para magoar. Quando eu falar de medo é tudo sobre esperança. Sabe bem, como quando digo de mim e é de ti que falo.
Eu dizia: há ainda este último medo que trago, pequena a chama bravia, e é só o que tenho.

Excerto de estilística IV

In O que é comunicação poética, Pignatari, Décio. 8.ed.-Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005. pp18

Descobriu Jakobson que a linguagem apresenta e exerce função poética quando o eixo de similaridade se projeta sobre o eixo de contigüidade. Quando o paradigma se projeta sobre o sintagma. Em termos da semiótica de Peirce, podemos dizer que a função poética da linguagem se marca pela projeção do ícone sobre o símbolo — ou seja, pela projeção de códigos nãoverbais (musicais, visuais, gestuais, etc.) sobre o código verbal. Fazer poesia é transformar o símbolo (palavra) em ícone (figura).